O ogro azul dos fãs de anime e mangá…


“Pensar fora da caixa”  é uma expressão que significa ver algo por um novo ponto de vista, mas também pode ser usado, com relação a mídias visuais, como pensar além do que nos é apresentado. Por exemplo o filme “A Origem” nos faz refletir sobre o sonho e especular sobre bem mais do que está no filme. O mesmo vale para animes e mangás, mas dessa vez vou juntar ambos os significados e falar sobre aquelas séries que apresentaram um novo ponto de vista para o estilo em que está inserida e que além disso, fez muita gente pensar horas e horas sobre o assunto ali apresentado após cada episódio. Tendo isso em mente vamos adiante…

Pensando fora da caixa (acho que só fãs de Reborn vão entender)

Existem certas animações que vão além daquilo que convencionalmente esperamos com relação ao estilo em que ela está inserida e que além de apresentar algo novo, nos faz pensar horas sobre aquilo que é apresentado… Normalmente essas animações acabam por serem lembradas como séries que quebram o paradigma, mas nem sempre é assim. Séries com idéias fora da caixa são raras, principalmente hoje em dia em que é difícil se criar uma idéia realmente inovadora, mesmo porque não existe uma real necessidade disto para se criar uma boa série com muito sucesso. Por exemplo, One Piece é a série de mangá de maior sucesso da atualidade, porém seu grande charme está no ambiente apresentado e em seus personagens, mas a série segue várias prerrogativas que a fazem uma série shounen de batalha como outras, talvez superior na forma como é contada, mas não muito diferente do que já se foi feito outrora. Podemos dizer que One Piece, bem como a maioria da séries shounens de batalhas de sucesso que se seguiram, são filhos da série Dragon Ball, não que tudo seja igual a Dragon Ball, mas muita se bebe dessa fonte.

Evangelion, o novo Mecha ou não…

É difícil pensar em séries shounens fora da caixa e nem me darei o trabalho de falar sobre elas aqui, provavelmente no futuro farei um texto sobre shounen, mas agora vou falar de séries em que é fácil perceber esse conceito. E provavelmente uma das séries mais famosas, e mais criticadas, mas na qual é fácil ver esse conceito, é Shin Seiki Evangelion. Por mais que muitos critiquem a série de animação, ela tem uma importância para o gênero ficção científica e para o gênero mecha que é louvável, além de apresentar conceitos que muitos discutiram e discutem até hoje. Evangelion não só foi um marco para animação japonesa, como ainda é uma série que muitos tem como importantes para sua formação como fã. E o resgate ou renovação da série que é feitos a mais de 15 anos que faz cada vez mais pessoas novas pensarem sobre ela, é prova da força de uma idéia além do normal.

Um outro olhar sobre otakus

Talvez aqui venha uma grande crítica a esta postagem, pois muitos não consideram que Genshiken tem toda essa importância e essa idéia fora da caixa, mas na verdade o que Genshiken não tem tanto é a popularidade que outras séries tem, porque é dificíl ver alguém que assiste Genshiken e não começa a ver o mundo dos otakus, não apenas japoneses, mas em geral de uma forma diferente. Sem abusos, mas ao mesmo tempo apresentando uma visão dos pontos positivos e negativos desse estilo de vida. Uma coisa que poucos percebem, mas que também é mostrado na história é que o ser otaku não é algo que você escolhe simplesmente por achar que aquilo é o que deve ser. Acho que ela deixa bem claro que você meio que é ou não assim  desde de bem antes de saber que é. “Um outro olhar sobre otakus” é provavelmente a melhor forma de se definir o que esta série apresenta, mas ela vai além por apresentar diversos conceitos, mesmo em meio a comédia, que faz você pensar sobre as mais diversas coisas. Por exemplo a explicação que o Marame oferece sobre o complexo 2D pode ser usado para coisas além de anime ou mangá, pode ser estendido até a revista com fotos sensuais de mulheres e o próprio pornô (você pode ver esse trecho no vídeo presente no post sobre Harunobu Madarame, para isso clique aqui).

Discutindo o Cross-dressing

Uma série que apresenta um conceito muito interessante e que é mais comum do que  muitos pensam e em vez de fazer piada, como é o comum, decidi apresentar uma história séria envolvendo este conceito é Horou Musuko. Essa história é protagonizado por um jovem casal que faz cross-dressing, o ato de se vestir com roupas destinadas ao sexo oposto ao da pessoa que está se vestindo. Pode parecer algo bem absurdo para alguns, mas existem pessoas que realmente não se aceitam como são e que gostariam de ter nascido com outro sexo e isso vai muito mais além do interesse sexual, tanto que o garoto que protagoniza a história  apresenta um interesse por garotas, principalmente pela protagonista garota. Para quem não viu a série ou acompanhou o mangá, O garoto é o de vestido com cabelo longo (peruca) e ar feminino e a garota é o personagem vestido com um garoto do colegial. Horou Musuko não só apresenta um ponto de vista diferente sobre a visão do cross-dressing e até um pouco do homossexualismo (por parte mais do amigo do garoto protagonista), como quebra o paradigma do personagem masculino que se veste como mulher e da personagem feminina que se veste como homem, pois em geral eles são apresentados como alívio cômico. Tudo isso é uma idéia fora da caixa, principalmente por se tratar de série seinen que realmente não tem quaisquer semelhanças a séries yaoi ou yuri, estilos próprios para tratar de relações homossexuais entre os personagens.

Refletindo além do tempo

Steins;Gate não é uma série que quebra muitos paradigmas, mas ela nos últimos tempos é a série que mais facilmente representa o conceito de idéia fora da caixa. Provavelmente a série em si passa a ser interessante no momento que o espectador passa a refletir sobre os conceitos apresentados e até buscar informações sobre  os fatos baseados em casos reais que são apresentados dentro da série. Talvez por isso mesmo há aqueles, que por se focarem de mais no lado técnico e no lado visual tanto do ambiente como dos personagens, não viram muita graça na obra, não que a ambientação seja ruim e que os personagens não tenham carisma, mas ir além é que faz a série parecer interessante. Sendo bem pessoal, não acho que a história em si da série é grande coisa, mas os elementos, os conceitos, a forma como apresentam uma ou outra coisa e aquelas dicas de fundo de cenário são o lado mais interessante em minha opinião. Acredito que tentar descobrir mais sobre viagem no tempo, sobre a CERN, sobre as referências a mitologia nórdica e até mesmo o tentar descobrir o que vai acontecer em seguida pelas dicas apresentadas, são os pontos mais interessantes da história. E por isso mesmo é fácil perceber que a série se propõe a apresentar algo diferente de tudo ou quase tudo que já vimos com relação a animação e visual novel.

O Mahou Shoujo se divide entre o antes e o depois de Madoka Magica?

Provavelmente a série mais comentada do último ano foi Mahou Shoujo Madoka Magica, primeiro pelo Mahou Shoujo que não lembra o Mahou Shoujo, mas que não deixa de o ser. Madoka quebra muitos paradigmas do gênero, mesmo ao apresentar várias características dele. O Sombrio, o monstruoso, o lado mal que pouco é visto nessas séries se faz presente o tempo todo em Madoka. Além disso, o pano de fundo que permite as mais diversas interpretações, o conceito do certo e do errado, o sacrifício pelo seu desejo e até mesmo o reescrever a história. Cada personagem mostra algo diferente, a cada luta se aprende algo novo e a cada momento a sensação de medo de falhar ou de se tornar algo diferente está presente. Não obstante, a base literária que a obra apresenta através dos mínimos detalhes como o roteiro se desenrola são diferentes de tudo que já foi se pensado antes e do que quase todos pensavam ser possível fazer em um mahou shoujo. Sim Madoka merece todos os holofotes que se viraram para ela, talvez não por agradar ao grande público, mas por mostrar que até mesmo em um gênero cheio de clichês e características inerentes a ele é possível se fazer algo totalmente fora do padrão, é possível se fazer algo completamente fora da caixa.

Uma aposta

Talvez falar sobre a série Muv-luv Alternative como uma aposta, torne esse post um pouco datado, mas mesmo que a série em si não se mostre tão interessante, a história base é sem dúvida uma idéia fora do convencional e porque não dizer fora da caixa. Por si tratar de uma série recente e por envolver ameaças alienígenas e colegiais, a forma como a história está se desenrolando mostra que até mesmo este estilo de história repleta de clichês e fanservice pode ser apresentado de forma diferente. Começando pela a idéia de um mundo distópico onde a corrida espacial rendeu um contato direto e hostil com seres alienígenas vindos de Marte e acabou resultando na invasão do nosso planeta por estes seres, o que fez a raça humana evoluir militarmente muito rápido e lutar pela sobrevivência a ponto de treinar desde cedo os jovens para a vida militar. Ok, Gundam, Macross e outros animes mechas já apresentaram uma história parecida, mesmo sem utilizar o conceito histórico de corrida espacial, mas tanto Gundam, quanto Macross são séries focadas no lado militar da história, só que Muv-luv tenta estender as batlhas colegiais, e evoluir para uma série militar e com algo mais, ou ao menos isso é uma possibilidade a partir do que foi  inicialmente mostrado.

Através dos exemplos acima tentei provar que não é preciso se fazer algo completamente novo para ir além, uma idéia fora da caixa pode partir de um princípio muito comum e elementos já apresentados anteriormente. O pensamente fora da caixa não significa criar algo novo, mas apresentar uma nova perspectiva a algo e com isso, em muitos casos, causar a reflexão. Em uma época em que o remake, o reboot e os clichês são cada vez mais comuns, idéias fora da caixa me parecem cada vez mais interessantes e relevantes do que uma idéia completamente nova. E para você caro leitor, pensar fora da caixa parece algo tão importante assim? Será que criar novas histórias com elementos comuns, só que bem feita não é mais interessante? Acredito que boas histórias são sempre mais importantes, mas inovar é também necessário, pois evoluir é necessário. Hoje em dia critico muito o esquecer daquilo que era comum em eras outrora e vejo no pensar fora da caixa uma forma de resgatar e inovar com séries antigas, muito mais importante do que fazer qualquer remake.

Agora é sua vez, caro leitor, de pensar fora da caixa e formular seus questionamentos sobre o tema apresentado nesta edição. Espero que tenham gostado e aguardo os comentários. Até semana que vem com mais perguntas, já que a reposta sabemos que é 42.

Comentários em: "A resposta é 42: Fora da caixa" (6)

  1. Igor Snow disse:

    Interessantíssimo o post Junior. Mesmo não sabendo do termo “fora da caixa” antes de ler seu texto, já considerava essa ideia uma das melhores propostas pro mercado atual, pq, além de surpreender quem acompanha a série em questão, não limita a criatividade do autor perante as regras do gênero.
    O problema é que muitas vezes as pessoas buscam pelo excesso de criatividade em determinada obra, só para constatarem que nela há raízes de outras obras, o que eu acho de muito mal gosto, já que, da mesma forma que não se deve perder uma boa história para acrescentar soluções fáceis e já conhecidas, também não se deve buscar loucamente algo “que ninguém tenha feito antes” só pelo status, permitindo-se a alguns “clichês” caso sejam cruciais para o desenvolvimento da trama.
    Bom, é isso rs. Até mais (e obrigado pelos peixes!)

  2. Escritora disse:

    Um post interessante, como sempre.

    Concordo com o Igor em tudo que comentou, pois é óbvio que esperemos que algo original surja e acabamos deparando com os clichês e características que já estamos acostumados em ver, ler ou assistir. Não é fácil encontrar algo que nos agrada tanto e que tenha ago a mais ou que tenta usar os mesmos clichês de uma forma diferente.
    Desde o momento que tentamos analisar o que gostamos de uma nova ótica, seja filmes, desenhos, livros e até mesmo os games, passamos a ver além do que os mais céticos costumam opinar.

    Não vou falar dos casos mais comuns,mas, como gosto de ler, eu vejo o antes e depois do “Harry Potter” – como exemplo – do que houve com a literatura infanto-juvenil no Brasile até mesmo no Mundo: antes de J.K Rowling trazer a obra, a literatura para adolescentes e jovens era restrita a clássicos e poucas coleções direcionadas para este público – exemplo clássico da “Coleção Vaga-lume” da editora Ática, pioneira neste ramo no Brasil – até que ele veio e a situação mudou.
    Agora temos várias coleções, autores que enfocam este público e as adaptações de grandes clássicos em quadrinhos ou numa linguagem mais simples e direta para os leitores. Além disso, acabou o paradigma de que livros tenham uma limitação de páginas, que simplesmente o autor não tenha de se preocupar com a quantidade e sim divulgar sua obra para o público.

    Voltando ao enfoque dos animes, sempre existe os animes que trazem uma revolução e os que simplesmente copiam seu contexto em uma nova história. Os exemplos citados acima são um pouquinho deste leque e apesar de não gostar de todos eles, dá pra ter uma noção do sentido de “Fora da Caixa”.
    Vou citar dois animes que me deixaram neste estado reflexivo, que assisti e gosto de recomendar: “Bakuman”, que fez muita gente ver o esforço que os mangakás fazem pra produzir suas histórias e o mercado competitivo dos mangás, mesmo que se restrinja aos mangás publicados pela Shounen Jump e “Detective Conan”, que mostra casos investigativos de uma forma que raramente se vê em obras de detetives em geral e pode ser considerado o “Sherlock Holmes” entre os animes, devido a sua temática.

    Bem é isso aí e continue com o post “A resposta é 42…”

    • Ótimo comentário! Gostei bastante da análise do contexto literário e concordo com você. Outro livro, este destinado ao público mais nerd, que podemos citar como um bom exemplo é a própria série Mochileira das Galáxias de onde retirei o título da coluna.
      Continue comentando sempre que possível pois gosto muito mesmo de ler seus comentários e ele sempre trás informações interessantes para todos os leitores.
      Aliás modéstia a parte o blog está ficando cada vez mais bem servido de comentarista e agradeço muito a vocês!

  3. […] relacionados: A resposta é 42: Fora da caixa  Abertura Evangelion Yuki Jcast Kuchu […]

  4. @Evilásio, será que meu patrão já leu este livro do Mochileiro? Pensei nisto a partir da leitura dos comentários e do que meu patrão fala sobre “sairmos da caixinha”. Muitas vezes ele comenta comigo sobre este conceito… fala sobre o fato de não pensamos em soluções para possíveis problemas porque ficamos limitados dentro da caixa. Precisamos buscar algo mais, sairmos da caixinha para buscar soluções que pareçam impossíveis ou improváveis, discuti-las e ver qual é a melhor, ou se é melhor realmente ficarmos onde estamos, depois de esgotar as possíveis soluções, é claro.

    Agora eu sei de onde veio a ideia do ACC66, que estarei escutando em breve…
    Parabéns @Evilásio, apesar de muito crítico com relação à escrita (e ao português em si) e dizer que você ainda precisa melhorar nisto, digo que conseguiste passar a ideia que querias. Ótimo post que fomentou ótimos comentários do Igor e da Escritora.
    Aliás, a série Vaga-Lume citada por ela é algo que eu gostaria de ter lido completamente algum dia. É uma série excelente de livros, cuja qual eu já li alguns e ‘O Escaravelho do Diabo’ foi o melhor deles até agora. Mas todos são bons/ótimos livros.

    EVA, anime que, diferente para muitas pessoas, não teve participação alguma na minha formação como fã e que tecnicamente eu achei um dos piores animes que já vi, realmente é um dos primeiros, senão o primeiro, a ser citado como exemplo de anime fora da caixa. Disto eu não posso discordar.
    Tirando EVA, os outros eu não vi, ainda. Mas queria apenas fazer um adendo sobre Hourou Musuko, série cuja qual já ouvi você comentar positivamente algumas vezes, e exatamente por sua causa eu pretendo dar uma chance no futuro. É uma das raras séries do MDAN que eu descartei na triagem na época em que foi lançada. Tenho repensado a respeito durante este tempo em que escuto o SMA e o ACC… e se faltava algo para eu sacramentar tal decisão, este post fez isto. =)

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