O ogro azul dos fãs de anime e mangá…

Steins;Gate


Para mudar o mundo pode ser preciso muito mais do que a chance de voltar atrás.

“ Hackeando o tempo, novas perspectivas surgem. Elas podem ser reveladoras ou apenas uma ilusão inócua, mas estamos fadados a explorá-las em nossa imaginação, essa é a escolha de Steins Gate!”

Relatando…

Steins;Gate se inicia com a inusitada personalidade de Okabe Rintarou, que na primeira cena aparece segurando um celular e recitando afirmações poéticas sobre finitude, infinitude e a condição humana. Não demora a descobrirmos que ele é um universitário e cientista maluco auto-declarado. Um dia Okabe se intromete em um seminário sobre viagem no tempo com uma amiga e acaba por encontrar a jovem Makise Kurisu, uma famosa cientista, primeiro perguntando a ele sobre o que ele queria dizer 15 minutos antes, depois caída em uma poça de sangue. Após deixar o local, Okabe manda uma mensagem sobre o ocorrido a partir do celular e de repente o mundo a seu redor sofre uma quebra de sequência lógica de acontecimentos. O protagonista tem o hábito de falar como se vivesse em um mundo paralelo onde uma certa organização conspira contra ele e seus amigos “membros do laboratório” além de falar de missões com nomes que remetem à mitologia nórdica. Dentre os experimentos do laboratório está um microondas conectado ao celular de Okabe. Durante testes com esse sistema, ele e seus companheiros de aventuras pseudo-científicas descobrem propriedades muito estranhas da “invenção”. Mandar mensagens a partir de um celular conectado a esse microondas significa mandar um texto ao passado e, com essa descoberta, começa a saga de Hououin Kyouma, o cientista maluco, viajando através das linhas do tempo!

Temática, opinião e detalhes

O anime é uma adaptação da visual novel  homônima  desenvolvida pela Nitroplus e faz parte de uma relativamente vasta gama de títulos que surgem em várias mídias em um intervalo de menos de 2 anos e têm como carros-chefe os jogos. Como é comum nas histórias que geram os trabalhos da Nitroplus, trata-se de um enredo a ser encarado a partir de vários pontos de vista e repetidamente, mas com direito a leves modificações e que se foca em um período bem delimitado de tempo, padrão que no caso de Steins;Gate é disfarçado e justificado pela existência de máquinas capazes de interferir no fluxo temporal. O universo em questão é considerado o mesmo onde se passa Chaos;Head, título sobre o qual já escrevi aqui.

Se você ler o resto do post e achar que tal leitura estragou as surpresas do anime, mande um D-mail, denominação dada na obra para as mensagens ao passado mandadas via celular e que deriva de DeLorean-mail,  e evite que você tenha lido!

Existem 2 maneiras canônicas de encarar a lógica das viagens no tempo, uma proposta por Einstein e outra por Everett, no conceito de Einstein, não existe o ato de viajar no tempo para mudar algo, pois só há uma linha de tempo e tudo já inclui as consequências das viagens. Imagine que o que você pensou em fazer sobre o passado automaticamente já foi feito e o resultado já é você pensando a respeito. No de Everett, existem mundos paralelos e viajar no tempo é mudar de linha. Steins;Gate traz uma teoria mista altamente elaborada. Nessa teoria existem sim várias linhas de tempo, mas a separação entre elas não é tratada uniformemente, há agrupamentos de linhas dentro dos quais o movimento é mais fácil. O padrão de medida da distância entre linhas de tempo é o grau de divergência, que diz o quão diferente em porcentagem um mundo é do outro. Se a divergência for maior do que 1%, parabéns, você mudou de agrupamento. No anime, aparecem dois agrupamentos nomeados de linha alfa e linha beta. Na linha beta, Makise Kurisu aparece em meio ao sangue, mas a morte da amiga de Okabe, Shiina Mayuri, só pode ocorrer em uma idade mais avançada, enquanto na linha alfa o acontencimento envolvendo Makise Kurisu não chega a ocorrer, mas Mayuri tem uma morte violenta em menos de um mês.

A cada D-mail mandado por alguém, Okabe se sente transportado de linha de tempo por manter memórias da linha anterior correspondentes ao período até a mensagem ser mandada e memórias de uma linha de tempo com consequências da mensagem correspondentes ao período posterior ao envio. A essa capacidade ele, sob o alter-ego  Hououin Kyouma, dá o nome de reading steiner, que é um neologismo que mistura inglês e alemão e não tem um sentido claro, mas que está ligado a outro usado no nome da obra. Basta dizer aqui que stein vem do alemão e quer dizer pedra. No anime, a cada uso do reading steiner vemos o número de divergência entre uma linha de tempo e outra, tipicamente abaixo de 1. Além disso perto do final surge uma máquina que mostra esse número. E sim, Steins;Gate é complicado se você quiser entender de verdade.

Explicado isso, vale ressaltar uma falha grave na teoria existente na obra: a referida máquina medidora. Como um sistema computacional de qualquer natureza poderia comparar mundos? Seria o bastante uma análise simples de mapas online feita em linhas de tempo diferentes? O resultado de uma heurística estranha assim provavelmente seria ruim. A versão rigorosa traz um problema pior ainda, para guardar em memória dados sobre cada partícula subatômica do universo, seria preciso ao menos uma partícula subatômica por bit ou qualquer outra unidade de dados de uma noção diferente de computador, logo seria preciso a própria quantidade de partículas do universo, ou seja, uma quantidade de matéria na ordem de grandeza da do universo todo. E mesmo se por acaso não fosse necessário guardar todo um universo para a comparação, seria necessário analisar a mesma quantidade de partículas em um tempo hábil, ou seja, ficção científica maluca como Kyouma.

Ao longo da trama fica cada vez  mais claro que ela se trata de uma versão da lenda urbana de John Titor, um suposto viajante do tempo vindo de 2036 para evitar a terceira guerra mundial. Perto do final, descobrimos que John Titor em Steins;Gate é Amane Suzuha e que ela é a responsável por fazer o IBN 5100 chegar às mãos de Okabe. Quase tudo sobre a lenda de John Titor já sumiu da web, mas dizem ter encontrado o responsável por espalhar a história.

Um fato muito especial sobre o anime é que ele realmente merece ser assistido duas vezes seguidas. Existe uma quantidade enorme de conexões entre o começo do anime e o fim e quando você termina de assistir os 24 episódios originais e o especial, o primeiro não parece algo repetido.

Outro destaque é a trilha sonora que, assim como em Chaos;Head, conta com a cantora Itou Kanako apesar de que o estúdio responsável pelo anime  não é a Mad House, mas sim a White Fox.

A todos que passaram a querer encontrar John Titor e roubar a máquina do tempo, el psy congroo!

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Comentários em: "Steins;Gate" (2)

  1. Nada mais a dizer que não: O texto ficou espetacular. Valeu a pena o tempo que perdeu ao escrevê-lo. Parabéns por mais esse belo texto.

  2. Gostei muito dessa série. Foi bastante interessante como eles pegaram a “lenda urbana” do John Titor e criaram uma misteriosa e empolgante história em cima. Junto com Madoka e Kaiji os 3 melhores animes de 2011 pra mim.

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