O ogro azul dos fãs de anime e mangá…


Você que é fã de anime e mangá já se deparou em uma situação que tinha de escolher qual seu gênero preferido. Provavelmente antes de responder a pergunta uma série de palavrinhas em japonês vieram a sua mente: Shonen, Shoujo, Josei, Seinen e Kodomo. E por impulso, ou por falta de conhecimento, respondeu a pergunta com uma dessas palavras. Porém, se alguém lhe perguntar “qual sua demografia de mangá preferida?”, dificilmente palavras como “ação”, “aventura’, “fantasia”, lhe parecerão opções e provavelmente você também usará algumas das cinco palavrinhas anteriores para responder a pergunta. De fato, qualquer uma das palavras japonesas anteriores responde corretamente a segunda pergunta, mas nenhuma delas serve para a primeira.

Shonen

Shonen

O termo gênero tem um significado tão amplo que pode ser simplesmente entendido como uma classificação de vários elementos segundo características comuns. Porém o termo é utilizado em situações específicas, por exemplo, biologicamente o ser humano pode se encontrar em dois gêneros: homem e mulher. Literariamente o gênero pode significar um tipo de forma de escrita (crítica, descrição, novela e etc.) ou um tipo de narrativa (ação, aventura, drama). Para o cinema o termo também pode ser utilizado para classificar uma narrativa como ação, drama, aventura, ficção científica e etc. Enfim, quando se pergunta “qual o gênero de um mangá?”, se que saber qual a forma de narrativa desse mangá? Ou seja, se quer saber se é uma obra de drama, ação, aventura, ficção científica, policial, máfia…

O termo demografia está relacionado a classificação de seres humanos, então quando se pergunta “qual a demografia de um mangá?”, se quer saber, em geral, qual a faixa etária para o qual aquele mangá a é mais indicado? Ou pelo menos era isso que deveria significar, mas…

Seinen

Seinen

Vale a pena agra explicar o que são aquelas tais palavrinhas japonesas que citei no começo do texto, antes de voltar a falar de demografias. A palavra Shonen significa garoto, analogamente a palavra Shoujo significa garota e a palavra Kodomo significa criança. O termo Josei significa mulher ou feminino. Por fim, Seinen significa juventude ou jovem adulto. Também existem outros termos japoneses que definem demografias, mas esses cinco são os mais utilizados.

Esses termos são utilizados apenas para classificar demograficamente revistas japonesas, em geral, que publicam mangás e novels. Para anime só faz sentido utilizar essa classificação demográfica quando o mesmo é uma adaptação de mangás ou novels que foram publicados em revistas. A classificação de mangás e novels é na verdade a mesma da revista em que a obra foi publicada. Por isso não é estranho que um mangá violento e com uma trama complexa como Shingeki no Kyojin é um shonen e que um mangá que simplesmente apresenta o dia a dia de garotas colegiais como K-ON fosse um seinen. Para quem não entendeu. Shingeki no Kyojin é publicado na Bessatsu Shonen Magazine, um revista shonen, e K-ON foi publicado na Manga time Kirara Carat, uma revista seinen.

Shoujo

Shoujo

E porque tanta gente confunde gênero com demografia? Não posso afirmar, mas acredito que o conjunto “termo japonês para classificar mangá + similaridade de gêneros famosos entre pessoas de certas demografias” seja o responsável pela confusão. Por exemplo, jovens garotos costumam gostar muito de obras de ação, aventura, com certa quantidade de violência e humor, por isso a maioria dos mangás shonen, que seriam destinados a esse público, tem essas características, de modo que para muitos o significado do termo shonen está associado a essas características, o que não é verdade. Analogamente jovens garotas costumam gostar muito de romance e drama, por isso muitos pensam que esses gêneros são intrínsecos ao termo shoujo, o que também não é verdade.

Outro problema é que as demografias não são tão bem definidas como parecem, pois além de ser claro que sempre haverá pessoas de certas demografias que irão gostar de obras de outra, qualquer demografia pode conter obras de qualquer gênero.

Além disso, as revistas japonesas consideram o povo japonês como seu público alvo, o que faz todo sentido, mas os japoneses são diferentes dos brasileiros, que são diferentes dos estadunidenses, que são diferentes dos indianos e etc. Onde eu quero chegar com isso? Povos diferentes tem pensamentos e leis diferentes, uma atitude que é considerada adulta em um país pode ser plenamente aceitável para adolescentes ou até para crianças em outro. Em um país mulheres gostam de se vestir com roupas mais leves e em outro isso é um absurdo. As diferenças culturais e na legislação de cada país influi diretamente na produção cultural do mesmo e isso obviamente afeta publicações de quadrinhos. De modo que um quadrinho que para um páis é destinado a adolescentes, em outro é destinado a adultos e etc.

Josei

Josei

Então a classificação demográfica japonesa de revistas de mangás e novels só vale para o Japão? Não. Você pode sim usar essa classificação em qualquer lugar do mundo, porém o mais correto seria utilizar as classificações etárias específicas de cada país. Porém o cerne da questão não é esse, o que quero mostrar é o quão errado é utilizar uma demografia como gênero. Um shoujo pode muito bem apresentar violência e ter uma trama policial. Um shonen pode muito bem apresentar a história de um casal. Um seinen pode ser protagonizado por crianças. Um josei pode falar da yakuza. Então toda vez que você falar que não gosta de shoujo, lembre-se que você está falando que não gosta de mangás, novels e animes que  podem tanto ser de romance, quando de ficção científica. E quando você falar que não gosta de shonen, lembre-se que você pode tanto está falando que não gosta de mangás, novels e animes que tanto podem ser uma aventura ou uma história de um casamento, ou sobre o dia a dia de uma dona de casa.

Enfim, demografia não é gênero!

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Comentários em: "Pensador otaku: Demografia não é gênero!" (4)

  1. Escritora disse:

    Olá! Tenho de concordar que há sim uma confusão entre gênero e demografia, pois fora do Japão, a não ser que tenha uma boa noção sobre as diferenças, acabamos confundindo uma coisa com outra.

    Vou falar de algumas experiências que passei: quando assisti “Death Note”, pensava que a série fosse um gekigá, muito por causa de seu conteúdo e traço; qual não foi a minha surpresa e choque que ao comprar o volume 13, que é uma enciclopédia da série me assustei ao saber que se tratava de um shounen e ainda por cima publicado pela Shounen Jump, ficava perguntando como a Jump teve ousadia de publicar tal série. Não esperava por essa mesmo…

    Outro caso foi quando comecei a ver animes no PC, quando peguei “DNAngel” pra ver e não sabia que a série era um shoujo, pensava até que era um shounen como os que temos costume de acompanhar; realmente fico sem jeito, como que eu ia saber se era na época. Só quando fui me informando mais sobre isso, que pude diferenciar certos tipos de séries de outras e raramente erro quanto a isso.

    Atualmente, tenho colecionado o mangá “Psychic Detective Yakumo” e ele é um shoujo com temática investigativa com toques sobrenaturais; o meu primeiro mangá shoujo, “Mad Love Chase” é um shoujo mais focado na comédia com toque sobrenatural e bem clichê em seu contexto, o que mostra esta confusão entre demografia e gênero.

    Hoje temos acesso a informações das revistas publicadas no Japão; temos como dizer o que é shounen ou o que é shoujo,mas, o que vejo é que o pessoal é bem preguiçoso pra ficar procurando se informar. Só assim pra saber mais e quem sabe, sairmos da nossa zona de conforto.

    Por isso gosto que os sites de animes e mangás tragam estas informações, porque assim a gente pode ter mais certeza do que acompanhamos e dar uma opinião mais coerente. Apoio e amo quando são feitas tais matérias, pois como dizem “vivendo e aprendendo”. De costume, uma postagem e tanto. Até mais!

  2. willcav disse:

    Quem está discutindo com um idiota?

    Confundir Death Note com Gekiga é embasado, mas é bem por ai mesmo. Acontece que essa subcultura otaku pode ser muito “complicadinha”, o pessoal que não conhece e começa a se aventurar nela se depara com esse monte de termos (arraigados em uma cultura tão diferente da nossa) e, ou fica fascinado ou simplesmente não quer se sentir excluído do grupo.

    De maneira que passar a usar essas denominações mesmo sem entender direito do que se trata, onde acaba surgindo toda sorte de desentendimento e bizarrice.

    Como falaram no comentário acima, um pouco de preguiça das pessoas em pesquisar e tentar se informar mais a respeito das coisas.

    Mas pra mim é meio inútil ficar insistindo nisso, seja em usar essas palavras (apesar de fazer parte do barato da coisa as vezes) que geram mais confusão do que discussões interessantes sobre qualquer coisa, seja em se preocupar com o uso que dão pra elas.

    Tentar explicar sobre isso é chover no molhado, porem! Por outro lado, também é importante pra ajudar quem tem interesse, ou não, em saber mais sobre o assunto.

    O texto ficou bom, simples e sucinto, gostei bastante. bye bye

    • Obrigado pelo excelente comentário!

      Eu concordo que é meio chover no molhado, mas às vezes é meio que necessário uns puxõezinhos de orelha.

      Afinal tem muita gente que por confusão ou falta de conhecimento mesmo, acaba tendo um preconceito bobo sobre esse o aquele tipo de obra. É importante que se pare de fazer essa confusão entre demografia e gênero, afim de combater aquelas máximas idiotas de que shoujo é sempre só romance, shonen é sempre só gritaria e poderes e etc.

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